quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A aranha.

Um tecido fino reluzia ao sol, pequeno e diminuto, vibrava comò vento e tornava-se invisível se nos distraíssemos. A teia enquadrava o que o olho permitisse, e por detrás dos gradis negros de ferro de meu prédio estavam os amontoados de concreto que se vê nas cidades. Havia uma casa de telhado vermelho a reformar ali, a terra revolvida pelo canteiro de obras, e as árvores de perto também tombadas ao chão.
O vento tocava a corda da aranha, que soltava inaudível melodia na fixa estrutura da teia conforme o vento a tragava para lá e para cá. A aranha repousava na ponta da corda, e esperava que algum desatento ou ignorante viesse a confundir-se e cair sob o seu domínio.
O trator entrava através do muro de pedra saliente e rebocava a terra e o entulho da casa. A cerâmica quebrada, o caminho de pedra do portão até a porta de casa estava todo ali, grama também. O vento vibrava as folhas das árvores e o seu som conformava uma mesma melodia bruta, natural, que se complementava com o "vrum" contínuo do motor do trator.
A aranha tocava a sua corda, e um mosquito prendeu-se na teia. Eu ouvi a melodia inaudível conferindo-lhe os meus próprios sons imaginados. O trator vibrava com a pressão da combustão, e nem grama ou coluna resistiam. A melodia audível seguia, e o apito contínuo do caminhão auxiliar lembrava o dos paramédicos ao hospital, ou ao levantamento de uma carga pesada demais por um veículo de motorista prudente.
O mosquito vibrou mais uma vez, e desenlaçou-se da teia preguenta, voando torto através das grades negras e indo em direção à casa na rua. A aranha desistiu de sua caminhada até a sua presa que fugiu, e faminta, voltou para a ponta da corda para aguardar novamente.
A casa se transformava em ruína, a aranha estava faminta e o mosquito estava tonto. Cai um segundo mosquito, e desta vez a aranha consegue aprisioná-lo. Sinto crueldade, a agressividade de erguer um muro e prender dentro de algumas linhas ou paredes algo que pulsa por vida. Lembro do casulo da borboleta. Ele mesmo em larva aprisionou-se em suas linhas para libertar-se. O contato entre a rua e a casa, o contato entre a teia e o mosquito, e o contato entre o mosquito e a aranha. Não era um mosquito que estava preso na teia da aranha, percebo. Mas uma borboleta. A borboleta. E lá vinha a aranha. O ofício de aprisionar eu esta história em minhas linhas, faz-me pensar entre o que é grilhão e o que é martelo, o que faz pesar e o que declara soltura. A aranha lá está vindo. A borboleta tenta sair dum novo casulo não feito por ela. O barulho de entulho sendo jogado sobre mais entulho alcança-nos os ouvidos, e a corda se balança com o peso da borboleta sob a fina teia, e se rompe pelo peso da borboleta em revolta.
Ela cai-nos ao chão branco de cerâmica da cozinha. Pego-a com as mãos, e com os dedos mexo as linhas atordoantes para cima e a declaro solta, livre. Ela está cansada, e repousa sobre um dos vasos de manjericão secos que há em minha cozinha. Eu pisco os olhos. Sumiu, mais invisível do que o fio da teia da aranha de minha cozinha, que aguarda faminta por comida. Há algumas formigas que comem as frutas já maduras de minha fruteira. Elas no caminho para casa, os buraquinhos em minha parede, se deparam com aquela que as come. Ah, que pesar é aceitar minha pequenez ao que é natural e não poder decidir quem vive e quem morre e por isso me ater a não agir. E assim, formigas em estômago de aranha, se transformam em interior de aranha e recurso de viver de aranha. Recurso usado pra fazer mais fios, e esperar que algum outro maior possa realmente alimentá-la, ao invés das pequenas certas vítimas que encontra. A aranha pesa em sua corda, e uma fina nota sai. Os trabalhadores da reforma cessam por hoje, e o vento corre em passo lento, fazendo ele o barulho aos nossos ouvidos. Penso em como ele é capaz de apagar as pegadas e os vestígios da terra. Lembro do que o Papa disse sobre que é necessário deixar pegadas por onde andamos. Sintetizo, e sinto, que entre aprisionar e representar e libertar o que se vive, não há finos limites ou definições. Sei que é necessário cravar a pisada que depois será apagada. "É". E é inominável e efêmera. Contudo é um desígnio, a de saber que os esforços pontuais não são desnecessários, fazem parte do curso da vida. Da nascente do rio brota algo, que é como se fosse necessário dar vazão abrindo as várzeas para aonde o rio corre, ao invés de canalizá-lo para aonde achamos plausível com cálculos geográficos ou hidrométricos. Como se o curso do rio fosse passar por onde intui sensível, e abandona-se a si mesmo enquanto corre para o encontro do futuro, para abraçar-se ao mar e confundir-se. Navego o pensamento olhando para o lado sertão da cidade, e acho graça por não pensar olhando ao lado aonde há o mar. Que rio é esse, que corre para dentro do meu Ceará? É rio chuva escassa que retorna à terra através das águas das nuvens e se aprofunda nos lençóis freáticos, até despontar de novo como rio e ir desembocar no mar.
E a aranha? E a casa? Eu me pergunto. Agora, eu sei lá. Aranha d'água talvez. O morador da casa aguarda enquanto os operários a constroem de novo. E lá foi a aranha se alimentar de linha. Que nem eu agora.

ps. fiz este texto no horário do almoço. não pensava ter sido tão literal esta última frase. agora irei comer baião e alface.

domingo, 24 de julho de 2016

eu vi a borboleta.

Eis tu, borboleta. Chamam-na te de alma. Eis uma raridade diante de meus olhos. Respiro. Percebo que algo em ti, borboleta, é divino. Eu poderia descrever-te, mas não o farei. Algo em ti encanta-me para que eu a contemple. Com o bater de suas asas, desfez e refez os pensamentos que me vinham em turbilhões. Eu vi, através de ti, uma luz amarela branca e borrada, esvoaçante. Vejo um matagal iluminado pelo sol por detrás de ti.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

É de tarde.

É de tarde e a ansiedade faz com que o meu coração bombeie o sangue de maneira que faz dormente a parte esquerda do meu corpo. Como se do meio para a esquerda o sangue tivesse ganho uma característica pesada, de lamentar, de fincar-se às raízes e não querer ir com o fluxo da vida. Imagine tamanho impedimento que acontece no correr dessas veias, imagine as pedras de percalço que se formam por sangue coagulado dentro do sangue. Como se elas desvirtuassem o córrego desobstruído do rio vermelho, fizessem-no que fizesse curvas desnecessárias ou ainda dificílimas em seu caminho. Como se o sangue por se achatar contra ele mesmo hora ou outra se tornasse enfezado e amargurado, ranziza do contato com as várzeas que se espalham dentro de si e fazem-no perceber que estes montes de barreira que se formam não sairão daqui. E ao invés de adstringir-lhe, de limpar com um de seus motores de cor branco quase prata, ele usa esta mesmo branco para fundir-se ao coágulo, ele se torna mais figura do impedimento do que de córrego a fluir. Vai perdendo a sua característica de córrego para transformar a terra das veias em barro ou argila, e assim vai correndo em um rio de si mesmo, ornamentando as suas paredes com os próprios orgãos essenciais à sua vida, com a energia de sua própria vida. Não é a toa que o rio corre mais lento, que a fonte da nascente, o coração, faz necessário purgar todo líquido que há sobre a terra, contudo o líquido da terra do corpo humano é o próprio que corre e está obstruído ali na esquina do rio, e então a pressão faz com que o ar se achate, o céu se comprima e faça-se mais perto da terra para que este rio corra mais rápido pois há menos vento para lhe fazer resistência. E assim a pressão faz com que o rio corra rápido, para que chegue mais rápido à nascente novamente, para que ao desembocar no mar retorne o ciclo, pois quando o rio desemboca no mar é quando se dá as mãos com a nascente. As vias humanas são mais diretas neste sentido. As várzeas tantas dos orgãos parecem sufocar, morrer por sufocamento sem vida de ar. Afinal, não é apenas o coração que trabalha no corpo, o oxigênio dos pulmões que lhe vêm vem transmitidos por pequenos botões e bolsas de ar, e acredito que não preciso frisar que há congestionamento e frisamento, há desequilíbrio por sufoco. E é um ciclo vicioso, do tipo que o sufoco abre os pulmões dos orgãos e da argila que precisa da água, faz entrar-lhe água elos puros, faz-lhe entrar água pelos poros que esta água é o sumo necessário de vida para manter a flora que lhe aflora ali perto, eis os orgãos: a flora. Precisam estar bem nutridos e do rio puxam a água, o ar e os sólidos que lhe são necessários à vida, a pressão do ar achatado, do ar compimido, faz com que as raízes precisem ser mais rápidas para captar os seus recursos, e assim se ramificam e se tornam mais profundas pelas beiradas das curvas profundas das várzeas do rio que corre. O que primeiro foi um impedimento, depois tornou-se em uma pressão, que depois tornou-se em um sufoco, que depois fez os orgãos fenecerem por falta de nutrientes. E o sol está forte, faz com que os orgãos não exercitados e nutridos fiquem amarelados, como flora seca e gasta por mal cuidado. A noite, vem deliciosa como descanso e relaxamento da flora, contudo, como a flora trabalha para captar o oxigênio pela noite, o sangue continua a servir e correr para respirar. É pela noite, é aqui que ela reúne as forças e regula a pressão dos ares para mais um dia, regula também o contato com os lençóis freáticos que correm lá no fundo da terra, que é de onde fez expurgar mais água, que é de onde precisa tirar e colocar as energias, pois é neste fluxo um pouco mais profundo em que a água se coordena e se orienta. Tanto em meio interno do lençol freático que está em contato com a terra quanto em meio externo que está em contato com o ar do mundo. Está saturado o meio, está tenso, a terra do meio, o corpo, e para isso receitam descanso e labor amado, pois se o sufoco se faz possível, é pela mesma razão que algum dia pode abundar, e é pelo exercício da terra de se remexer para lá e para cá, da água para lá e para cá, que o rio ganha força e ganha várzea, por necessidade de se expressar e correr, pois correr e chegar é sempre o seu fim e o seu meio. O rio corre mais uma vez para ser rio mais uma vez e sempre, algumas vezes por minuto, e quando finda, raramente finda, pois muito de sua água tornou-se adubo no mundo que há fora de si, ou ainda, conseguiu juntar-se a outro rio para fazer uma pequena fonte, unido da terra e dos lençóis freáticos. Pela obra o rio fala, pela obra o rio vive, mesmo que toda a obra de um rio, seja apenas tocar o curso de outro rio e com ele seguir caminho. Assim vamos, assim vamos. 

comentário de meu pai:
: É de tarde. Ou: é tarde, velho Chico? E rimos.
: E num ria não!