quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

eu fugi. [3]

já era a parte do domínio da lua no céu¹, e para debaixo do brilho fosco e branco que ela tingia o capim selvagem de minha altura - eu via apenas púrpura. olhava ao céu, e em minha vista estava o buraco negro de quem olha demais para o sol e com ele a retina fica cansada e ficamos a ver negativo e escuro nas coisas, como se faltasse-me um buraco na paisagem na esquina entre duas estrelas no céu e uma árvore.
não vou ser prolixo, estou acovardado e acocorado por detrás de uma árvore e ofego, há razões pelas quais eu fugi, senti que eu temia forças do encontro e quando vi eu já debandara e atravessara o rio a nado e a lã que me veste ainda pinga. está de noite, não tenho abrigo e perdi aquele que caçava de vista e logo penso na fera e no que acontecerá quando ele se encontrar com ela, por cruzes, era melhor eu ter ficado perto daquele homem, eu não faço ideia de como achar esta fera e eu preciso salvá-la, coragem, meu coração, tu precisa - eu digo a mim mesmo - agora usa de tua inteligência para poupar-nos e achar uma solução diferente da que estamos a fazer de pelo mesmo caminho voltar
nós vamos de novo ao encontro, não debanda
e olhe ali a frente, há gente que mora em comunidade, e estão a queimar e fumaça sobe no céu, cinza como se fosse nuvem e pudesse chover, e tusso, a fogueira ilumina de amarelo vermelho o semblante das pessoas que a rodeiam e elas parecem celebrar alguém que há muito já foi e era querido, alguns choravam, e eu a me esgueirar como pantera amedrontada e alerta de interferir na festa das pessoas
volto mata à dentro, não como há dias, furtarei comida?

mas o que...

sábado, 7 de janeiro de 2017

já era a hora da ira mostrar o caminho, [2]

há tanta vinha partida neste matagal que coça as nossas costas e nos faz ofegar umidade - as plantas acumulavam-se nos nossos caminhos - e para detrás de nós deixávamos os rastros dos homens brutos com os destinos das plantas, acumulavam-se ali tantos meses de labor e crescimento que ceifávamos para achar passagem entre tanta densidade de folha e mato verde escuro,

nos troncos haviam fendas gravadas e arranhadas, e aquele ali estava com a raiz para fora, seus galhos secos a balançar com a brisa a ponto de cair, como rede dependurada em calma sacada de casa, e nós os brutos éramos como crianças ou o cachorro destrambelhado que se esbarra em todas as coisas, em nossa investida e corrida sem mira, acabávamos por acertar com nosso corpo tantas árvores e raízes e a derrubá-las, que eu poderia dizer que possuíamos espírito de elefantes a debandar, e estávamos irados porque estávamos desnorteados, sem saber de onde havia vindo o tiro dado ao ar ou a agressão primeira à calmaria, sei que o homem que empunhava o rifle ainda vociferava e de seus dentes que pareciam garras ele abocanhava as palavras e a minha liberdade se via mordida entre sílaba e debandar de grito,

do meu braço já rendido quis acumular resistência, achar exercício imediato ao qual eu pudesse primeiro fugir daquele local e pudesse me fortalecer para um dia me confrontar com este outro, ou como ainda, os animais que são presas, que eu fugisse de seu convívio pois ali eu talvez me achasse comido algum dia, e assim o impulso de meu corpo tensionava as minhas pernas como se fosse lebre a ponto de fugir e minhas orelhas estivessem atenuadas esperando a voz deliberada e forte tornar-se distraída para que eu desse o golpe que desferiria a minha ausência permanente e infligiria-lhe a solidão e não aliviaria a fome de partilha dos ritmos que tocavam de dentro de nossos corações, e aqui eu volto à descrição que fiz ontem, pois sinto que meu coração toca como o céu que chora, quando uma nuvem que estava calma é levada por um vento a tocar a outra e por reação começa a lacrimejar até desaparecer, e lenta, torna-se orvalho diante das coisas, e o ritmo dele, era o ritmo das neblinas que se acumulam perto das montanhas, da água que chocada com a súbita mudança dos ventos acumula-se e é forçada a chover naquele lugar ali tantas vezes, pois levanta e sobe e faz o mesmo esforço tantas vezes tão depressa e rápida, não é à toa que este homem vocifera e procura feras, está ele mesmo cansado e julgo, precisa de alimento, mas eu julgo novamente, e sinto que da fera ele quer apenas prêmio ou pele, e não aprender-lhe as maneiras ou contemplá-la, e no meio de todos estes pensamentos lembro-me que sou pessoa e não lebre, que posso querer fugir, contudo posso usar da linguagem para me libertar ou gesto ou coisa, e assim é um espaço arriscado ao qual estou,

[2]

e amanhã continuamos

estava eu a procura de rastros da fera,

não me lembro como vim parar aqui, posso vos dizer que apenas comecei e quis ter começado do meio da história que muito bem seria verdade, de que estávamos dormindo e quando vimos nosso corpo já ía em direção a batalhas anunciadas por nossa tribo e que sim, estávamos preparados e de certa forma, maquinados e imbuídos e impregnados de espírito coletivo - que se fazia ouvir através de cantos e coros de homens de voz grave, seguidos de um amansar de voz feminina e calma, que dizia: é hora de lutar e expandir o território de nosso povo -, é preciso que eu vos diga que há apenas alguns anos atrás estas vilas tinham medo do que era do território limítrofe e entre invadir o que havia de estranho no mundo e reconquistar o que havia de madeira, animais e colônias ao redor, e preservar o que havia dentro do território da cidade, tocar a vida com certa mansidão e expandir os conhecimentos sobre a colheita e as visões dos outros, havia uma grande divergência e isto estava nas tinturas que usavam para se manchar, alguns, do vermelho pau brasil, abriam e ferviam sementes de acácia vermelhas e pintavam o rosto da cor do coração e da coragem, os outros, do azul estrangeiro das anileiras e das plantas invasoras tentavam achar a cura no que era daninho na calmaria da cor das sementes que vinham do céu, contudo, estes eram os tempos anteriores, os tempos de agora, diferente de quando os corações batiam em ritmos discrepantes - em discórdia, agora tinham acordos e até concordâncias através do ritmo vital dos tambores que residiam em seus corpos, e agora como que imbuídos de um espírito ou alma, ou uma substância que provê sentido e ligação com a vida que é capaz de explicar o inexplicável¹, esta pessoa que nos é familiar e o protagonista, o nosso corpo, na verdade, o meu corpo, está a andar por território ainda todo envolto em breu, por território que por perto de mim, há apenas areia de duna a sentir nos pés e afundar-me enquanto o tempo passa, e conforme toco e subo a duna ofegando e vendo que o sol laranja empresta-me a sua cor aos meus pêlos e sinto-me amornecer, prevejo que irei ver alguém a saltar distante entre as árvores nada costeiras do mar, na direção contrária aonde o rio bem seguia a ali desembocar em final ato de individualidade pois se mesclaria ao amor das ondas para aonde seguiria, nunca fui mãe, mas imagino que as mães percebem-se imersas em um tipo de mar e terreno aonde há uma cultura que é traduzida nos olhos dos seus outros, de certa gentileza e cumplicidade - do tipo de ceder o lugar ou prover-lhe o que lhe é necessário naquele período para aquele rebento, de que há mais um olhar para aquela criança que está a nascer, assim também como nela se faz sentir uma vontade de enveredar e tornar as redes da vida mais aprazíveis pro seu pequeno peixe que está a nascer, que porções do mar irá sujeitá-lo, que quantas coisas irão rodeá-lo e por fim nutrí-lo, se é um mar salino ou límpido, se é mar de rio como estamos aqui perto de ver agora ou é mar profundo, como se a maternagem pudesse ser diferente para aqueles que nascem de dentro dos navios e o seu coração se alinhasse ao campo magnético do mar e depois ao da terra, como se a tensão da corda do tambor de seu coração já fosse por nascimento determinada - como se dissesse, este aqui está dado à mansidão ou à fibra, como se a matéria que há debaixo e ao redor dos filhos ao nascer determinasse as suas personalidades, e assim, depois de tanto intermédio e opinião, é que vos digo que naquela beirada víamos um nascer de gente, queria ver isso, mas não era isso que nos aguardava, e sim

uma canoa velha já esculpida e talhada de negro por um senhor de cabelos loiros e de chapéu de caubói, mas me diga, qual o sentido de um chapéu de caubói, se estamos perto de uma duna e de lugar definitivamente brasileiro, não faço a menor ideia, e assim, peço que nos próximos encontros com coisas necessariamente absurdas, o leitor faça a mesma suspensão com a qual acontecerá com o chapéu de caubói pois farei uma promessa de à partir destas linhas não tentar intuir o mundo, mas sim, sentí-lo e descrevê-lo tal como ele o é, que a prosa agora vigore através da descrição, e é um, é dois, e é três, e foi

dos olhos azuis marcados por lágrima ressentida ou banho de rio recente, víamos que suas olheiras carregavam pesar de dias atrás ou do tipo que adentra a pele a comê-la pela fome de há muito não comer, seus cabelos finos caíam do rosto de forma casual e há muito não via um pente, parecia um homem perdido de seu destino e também possuía roupagem típica dos militares, de botas e roupa camufladas, e este homem tinha um rifle que apontava para nós, e no gatilho, víamos que o anel de seu matrimônio estava enganchado, seu rosto inflou-se e o sangue veio para as suas bochechas e ele vociferou algo que eu vi no título, como se me lembrasse, estou a procurar a fera e vou caçá-la, você parece um selvagem, nu, e tu sabes o que tem por aqui, eu respondo com as mãos na frente de minha cabeça que nada sei, atormentado pelo semblante de ver uma arma aqui, e sinceramente, um outro humano, que é isso, nunca havia visto nestas bandas por aqui um outro humano e meu corpo tremia a minha hesitação e minha ansiedade de saber se ele era hostil ou cordial, e na verdade, de testemunhar que nada de cordial havia, e queria esconder-me por detrás dos arbustos e das árvores quando ele me disse

venha comigo ou eu atiro, ajuda-me a localizar os rastros da fera para que eu possa matá-la, e assim, com o meu ombro esquerdo doendo por eu ter de trair os meus princípios de deixar a fera viva, afinal eu queria vê-la, rendo-me e frusto o fluxo de ligações de neurônios que desciam às minhas costas que estavam indo ao meu punho, a minha ira seria possível alavancar-lhe um murro no rosto, contudo senti-me tão vencido que a minha própria raiva e o meu impulso voltaram-se contra mim e deixaram-me tonto, e sobre o calibre daquela arma e da boca que salivava e vociferava contra mim, tu irás achar a fera para nós, meu corpo tremia atarantado como formiga pisada a se recuperar,

[1]