quarta-feira, 8 de novembro de 2017

a origem de (meu) Pedro Malasartes

Sântaro Secreto um dia acordou morto. Não como das figuras de linguagem que conhecemos, que indica que algo nele faltava perto às coisas do mundo que o impossibilitava de se sentir vivo na coisa que poderia chamar de carcaça que o envolvia. Carcaça que o envolvia e o protegia e o machucava do mundo, essa que poderíamos comentar que é a materialização do inverno da alma, que é o recolhimento e a destruição de tudo que havia de dentro para submeter os pensamentos a uma grande revolução, e o que despontasse novo de vida na primavera por seguir, seria o que chamaria de sentimento vivo que lhe acompanharia pelos dias seguintes. Poderia ser assim, mas não. Sântaro Secreto acordou morto, mesmo.
Percebeu que estava morto quando os desejos de ser ignorado, de que sua presença fosse invisível ou intocada foram enfim respeitados. Estava na mesa de café da manhã, havia cruzado a porta de seu quarto privado sem abrí-la, atravessara-a, e agora sentava-se à mesa e tentava tomar um copo de leite que tentava tirar da geladeira. Os vivos estavam assustados e estupefatos, do copo estar se mexendo dentro da geladeira e ninguém sabia a sua razão, mas eis, que aqui aonde a lei de percepção dos vivos não é a mesma que a dos mortos, um copo que se mexe ou uma janela que estala e faz barulho, que nos indica que há um outro ser etéreo ali e nos assusta e quer comunicar conosco, às vezes significa que este mesmo ser está usando o objeto de outra maneira, maneira à qual não percebemos.
Sântaro Secreto bebia o leite que estava deitado na porta da geladeira no copo que quebrara-se em cacos no vão de minha casa. Quem sabe como é a arquitetura daqui, sabe que as cerâmicas brancas estão nas paredes e no chão, que estofados laranjas fazem as esquinas de uma mesa retangular e envolta num plástico, cuja as mãos se pregam quando há umidade ou qualquer coisa outra coisa. Sântaro estava em minha casa e poderia ser meu fantasma, mas não era.
Sântaro Secreto era um morto, meu morto. Dito esta parte introdutória sobre estar morto, Sântaro quis continuar o seu dia. Voltou-se com pesar ao aposento de meu quarto, e quis tocar em alguns livros para abrí-los. Não conseguiu, fazia os livros mexerem-se para cá e para lá, se eu estivesse acordado eu bem poderia sentir que há uma presença nefasta ou confusa em meu quarto, que torna o ar denso e pesado, como o sentimento que fica quando alguém grita na casa com outro injustamente e impregna-lhe as paredes. Sântaro era agora metade grito, como aquele quadro de Munch que está assustado no meio da ponte, pois tudo o que fazia adquiria novas tonalidades de descoberta e de vida, Sântaro via que na morte tinha outras formas de viver. Via que os livros não eram como conjuntos de palavras, mas antes, grandes construções de correntes aos quais os vivos podiam acessar ao lê-las, algumas, poderiam ser poços profundos ou então vários retratos distintos de uma vida vivida, se eu conseguisse me comunicar com Sântaro e dissesse a ele para ler este texto, eu julgo que ele diria algo como, são as memórias de tua vida enquanto desejaste estar morto, dito de maneira como quem solta uma frase simples, com uma carga de lamento e abaixa a voz no final da frase e quer olhar pela janela de meu quarto ignorando o assunto. Pois bem, Sântaro estava em meu quarto, em minha casa, e meu corpo estava dormindo ainda enquanto ele passeava por minha casa e descobria os objetos mais uma vez. Ele leu alguns romances, na verdade, imergiu-se neles e algumas cenas presenciou. Foi capaz de retornar a quando as palavras estavam sendo escritas, e viu que mortos sussurravam através das palavras do vivos que assim quis chamar de "carregadas". Palavras que eram portais para outras existências de longe, aquém do que o vivo poderia saber, que articulava nele um tipo de força a fazer o conjunto de frases sobre uma guerra presente, que na verdade, falava-lhe de muito tempo atrás. Por exemplo, este morto, Sântaro Secreto, não está morto em meu quarto, em minha casa, ditamente assim por obviedades. É assim como eu o sinto, mas ele está em algum lugar escondido da história ou do passado que é perto de minha casa.
Sântaro Secreto descobria que tinha aversão aos livros de Guerra, não despontava mais nele a curiosidade de ver os feitios dos homens e como eles bradavam as espadas ou lanças uns sobre os outros pois agora dizia ver as linhas que uniam os destinos maiores aos menores, e dizia que quem estava envolvido na Guerra e morria, deixava-se muito por alinhavar, muita vida por fazer antes de morrer, e assim eram com os vivos, assim como com o próprio Sântaro.
Sântaro Secreto simpatizou com um morto sem nome, com um morto que havia nascido entre o século xviii e o xx, um morto filho de homens pobres que ascendeu através da traição ao seu povo, viu que neste homem, estavam contidas contradições que carregava no sangue ou em seus vizinhos. Sântaro Secreto identificou-se com ele, e com suas habilidades de fantasma, imergiu-se na história e com isto voltou no tempo e habitou-lhe o corpo como se fosse o dele.
Sântaro secreto acordava em um quarto feito da taipa e do barro, sua mãe dava-lhe o seio e era um infante. Um homem armado entra-lhe na porta da casa e anuncia um saque, diz-se que se não se apresentar os homens daquela fazenda e trouxerem a prata, levaria o maior tesouro da casa com ele. Não vieram os homens, e o choro da mulher se ouviria através das canções que ensinou à filha, e o tesouro maior que tinha, era o filho. Disse isso ao homem, e o homem como quem pega uma moeda de barro em meio um lingote de ouro, apanhou o descendente do seio e colocou-o sobre suas costas. O menino, que irá ser chamado de Sântaro, alimentou-se com os espíritos que estavam de passagem que traziam-lhe água e leite, enquanto o cangaceiro carregava o menino no ombro e chamava-lhe ao desafio: farei de ti o dono de tudo o que tu vês, se tu aguentares um dia no deserto para cada ano que tens, como tens três, te deixo à tua sorte e espero que esteja morto, pois do tesouro não era o que mais brilhava para mim e quero vingança.
Filho deste voto maléfico, deste que queria findar sua vida tão cedo, Sântaro resistiu protegido por força maior, de outros mortos virem trazer-lhe o leite e até a cantiga, uma música de longe que fazia até o coração acalmar, e que mais tarde em grandes decisões, o faria ser brando - mas não duro. Sântaro assim cresceu, aos seis anos de idade, tendo sobrevivido a quatro desertos com ajuda dos espíritos do mundo, e aquele que o sequestrara e lhe trouxe a novo destino, Malasartes, deu-lhe o nome de Pedro e disse a ele que tinha novos cantos para ir e gente a enganar e roubar.
Contudo, Sântaro Secreto que agora é Pedro, via que os mortos faziam pedidos estranhos aos vivos que eles não entendiam. Pediam um pedaço de terra para eles trabalharem, e os vivos não entendiam quando esta terra não davam frutos em sua percepção - mas tinha um grande campo e fazendas dos mortos ali. Pediam também que cuidassem melhor dos filhos que levavam o mesmo nome dos avós, estes dando dor de cabeça aos pais e mães cada vez que tratavam-no com injustiças do tipo, "menino, não coloca essa mão no chão e nem muito menos vá brincar, você precisa ficar parado aí para não me atrapalhar" , e os avós davam-lhe os olhares recriminadores que amargavam a vida dos pais e os aborreciam mais. Muitas vezes, haviam objetos aos quais os mortos usavam muito para suas tarefas de morto, e os vivos o ignoravam e tentavam usá-lo também.
Causo que aconteceu para esta fortuita estória que vou contar. Pedro Malasartes tinha seis anos e tinha acabado de sair de seu último deserto quando Malasartes dera-lhe a tarefa de roubar gente que há quatro gerações não tinha feito mal a ninguém. Gente que decidira se aquietar e viver longe das aldeias, e só saíam para casar e voltar para sua terra, puxando aqui ou ali mais casa para a família. Tinham seis na casa, o avô e cinco netos.
Sabe-se que a avó já tinha morrido há dois anos, mas ela estava ali ainda dentro da casa no fiador, na roca que rangia toda noite e fazia belos tecidos aos ricos dos mortos, tecidos com lampejos dourados do sol, ou tecidos com o verde vivo dos campos. Seus tecidos eram conhecidos em toda a mortaria que lhe vinha comprar, de ares distantes. Agora, a avó fazia uma encomenda feita pelo rei das estações, que garantiria boa semeadura para a família em forma de pagamento. E assim, a avó seguia a morte trabalhando.
Só que havia um problema, os netos, meio assustados com a fiadeira que caía, dava sonhos medrosos quando mais novos, queriam vendê-la para comprar novas ferramentas para arar o campo. Nenhum deles tinha esposa e achavam que trabalhar na roca era coisa que não poderiam fazer pois tinham um pinto entre as pernas, pois o pinto assim como cai do meio entre as pernas do homem, precisa cair e estar também nas palavras que ele usa, pensavam, e isso significaria que só podem trabalhar na roça, e não na roca, se me permitem a ilustração.
Pedro Malasartes foi incumbido pelo seu criador de roubar da casa o maior tesouro, assim como fora roubado como criança. E com esta intenção bateu na porta e foi recebido com água e aperto de mãos. Disse à todos que queria comprar a roca e que poderia pagar semana que vinha, uma coisa muito pouca, e assim os homens todos se animaram por ter vindo o viajante com a proposta que queriam ouvir e celebraram uma pequena farra. Enquanto todos dormiam, Pedro desmontou a roca da casa e fez uma trouxa com o lençol em que dormia e saiu de volta para aquele que cuidava de si. Sendo que agora tinha no seu encalço uma velha com um lenço na cabeça que estava estressada e gritava com ele, dizia, e meus netos! Como diabos eles vão ficar? Você rouba a única coisa que lhes dá um pouco mais de sorte, e os engana do único tesouro material que eles tinham! E a velha gruda no Pedro. Quando Malasartes vê a máquina desmontada fala: é cada coisa que os vivos tem como os seus tesouros e que às vezes eles não percebem qual o seu valor... E mandou Pedro juntar com as quinquilharias que tinha no depósito, aonde as coisas ignoradas íam, e Pedro viu que vários mortos por ali andavam. Alguns receberam a velha, e disseram que as encomendas e trabalhos que recebiam, poderiam dali ser feitos. Ela se acalmou e se pôs a trabalhar na máquina despedaçada, como quem se restabelece de uma topada que deu na rua mas não caiu e segue a caminhar normalmente. Assim foi.
Contudo, Pedro sentiu-se com uma pontada ao dormir, viu que a velha queria ainda estar perto dos netos, viu que a encomenda seria melhor feita se ela trabalhasse perto de casa, e se compadeceu com o destino da velha. Assim sendo, foi roubar Malasartes, com o fim de devolver a máquina para a família. Contudo, viu que Malasartes poderia perseguir a família e eles não teriam paz, ele precisaria fazer algo mais grandioso para isso. Então, quando Malasartes virou as costas um dia para olhar a noite escura, pois Malasartes não dormia, Pedro meteu-se no depósito e tentou fazer uma comoção com os mortos que estavam lá, dizendo que dariam a eles outro lugar no mundo e talvez veriam a sua família novamente, o que era uma mentira. Os mortos se comoveram com o menino, e sabiam da sua mentira, contudo, queriam livrar o menino das mãos de Malasartes, pois viam que o menino tinha um pouco de bem no coração que se fosse preservado, mais tarde poderiam ir ter com ele para fazer algumas coisas com seus vivos. E assim os mortos se permitiram ser enganados, e Pedro começou a mover os tesouros para fora da casa. Malasartes percebeu e foi até ele e disse que nada fugia do dedo dele, que nenhuma folha caía sem que ele soubesse em sua casa, e Pedro deu um riso maroto e disse, e é por isso que você vai saber tanta coisa agora que quase enlouquecerá, meu cuidador. E dito isto, os mortos saíram de seus cantos e começaram a mudar os ventos e levantar os objetos muito alto, jogá-los para muito cima e revirar a casa com um grande tornado. Malasartes, que estava ligado a todos eles, sentiu um rebuliço e uma falta de foco, mas como era poderoso, e protegido por sabe-se lá quem, não se afetou com isso e continuou forte olhando Pedro. Pedro precisaria mais do que estardalhaço para se ver livre de Malasartes, e foi assim que percebeu que ele deveria roubar o maior tesouro de seu cuidador e mestre, o menino que agora ía sucedê-lo nas artes, para tirar sua força e influência. Pedro viu tendo que roubar a si mesmo, e o faria de maneira simples. Ele quis enganar o mestre, e lhe disse, Mestre, preciso ir ganhar o mundo e fazer as Malasartes por meu próprio punho, minhas próprias vontades, e assim você continuará a viver em mim enquanto eu desagradar os destinos dos outros. O mestre consentiu, e viu que o garoto mentia, mas assim, dissipou-se e tornou-se um mero sobrenome ao nome do menino, carregado agora no peito junto dos outros espíritos da casa. Pedro Malasartes agora estava incumbido de ir deixar as mensagens dos espíritos e enganar sempre o mestre que carregava no peito. Essa é a história da origem de Pedro Malasartes. E o que aconteceu com a velha e com todos os mortos? Ele a enganou, disse que a levaria para casa mas não levou, levou-a para a cidade e vendeu a roca a um velho de estalagem. Este velho tinha uma neta, que quando sentou na roca pela primeira vez sentiu a velha a lhe olhar e ensinar, e a velha lhe ensinou a arte do fiar. Mais tarde, gente com dinheiro pediria tecidos a ela, e um pobre coitado viria lhe pedir a mão em casamento e ela lhe negaria, porque ele não sabia ver que nos tecidos haviam coisas bonitas. Este pobre coitado, era o neto da velha, que voltava a procurar lembranças de sua vida e havia viajado para a cidade com o dinheiro que achou dentro de uma botija no campo que procurava. Pedro Malasartes negaria até a sua morte que foi ele quem botou lá, pois não foi mesmo, nem muito menos a velha. Havia sido Malasartes em seu último ato de maldade, quisera dar chance aos netos que vissem o belo trabalho que fariam se sentassem à roca e não cobrassem da vida que todas as palavras tivessem um pinto nelas, como roça, faria amargar o seu coração de não poderem nunca partilhar do tesouro da avó que um dia quiseram se desfazer. E assim amargou.
A avó compadeceu-se do menino, e apareceu no sonho da menina a dizer que lhe desse um pano bonito para que se lembrasse dela, e que se fosse capaz de fazer um mais belo que aquele, teria a sua mão para casar. O neto sentou e tentou aprender a roca por meses. Frustrou-se e desistiu e partiu os caminhos.
Com o dinheiro que Pedro arrecadou, ele comprou uma capa para deitar-se no campo, aonde podia dormir guiado pelos espíritos do campo e ouvir os pedidos dos mortos. E assim seguiu a vida.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

tocando na árvore,

tocar nesta árvore é uma ponte que me levará para a época em que ela foi plantada, é assim que imagino antes de tocá-la, e eu a toco. Nada acontece, há ao meu redor a fanfarra dos grilos e um leve coaxar dos sapos. Consigo ver muriçocas no ar de tanto que a lua brilha no descampado da clareira, similar a um farol dos Deuses sobre mim, me pergunto se estou sendo investigado, e tento olhar para as nuvens, mas não há nenhuma ou constelações que brilhem a zelar por mim, estou só. O ar frio, lento, me reconforta e eu sento ao pé da árvore. Com a unha tento caminhar entre as suas cascas. Exalam um cheiro de aquecimento, e me trás a tona a memória da iluminação amarela dos filmes em que as pessoas se aconchegam ao redor da clareira caseira enquanto está o maior inverno lá fora, a mãe faz biscoitos aos pequenos com chocolate, e parece idílico, lembro que nesta memória ela havia perdido uma criança ao lado de fora da neve, e embora estivesse ansiosa, dedicava amor para fazer a comida, que como pelo cheiro, traria a criança desertora de volta para casa, mas não era assim, seu irmão deitava-se no sofá com ares de quem está sozinho, sentindo falta de quem lhe acompanhe em suas aventuras com os lençóis da colcha e do freáticos da terra que vão desaguar no mar da canoa de colchão, a pequena, sente raiva, dizia que ele havia fugido por conta dela, que ela havia magoado ao roubar-lhe o lugar perto da clareira na noite passada e por isso havia fugido, se culpava, não sei se é meu olhar que turva a realidade desta memória que é imagem, mas as coisas pareciam mais espinhosas do que pareciam ser, e ainda assim, mesmo que isto fosse verdade, escolhi ignorar coisas algumas e ainda outras, eu nem saberia como as citar pois eu mesmo sou cego, e só posso ver com as mãos, afinal, como eu posso sentir com as mãos uma memória? eu me pergunto de meus métodos enquanto caminho no tempo de minhas lembranças televisivas, afim de reconhecer que aqui, há um fio de fibra, um pedaço de madeira ao qual vem da raiz, que algo nesta imagem remete àquilo ao qual eu procuro, e entre as cascas das árvores que descasco, e exalam aroma de limão, que me faz fechar os olhos e as narinas, como se fosse um espeto ao qual a árvore empunhava como uma espada, não faça isso comigo, e eu vejo os meus erros e me desculpo, e digo que deixarei àquele que as guarda o punhado de seus cascos e sairei para buscar algo que lhe servisse de armadura para o tempo naquela parte maculada por mim. olho ao céu e uma só estrela brilha para mim e some, e uma outra memória me vêm, desta, de minha família que lá está, e cuida de mim como quem cuida desta árvore, parece que vou meter-me em problemas, pelos cuidadores já se anunciarem como a estrela guia de minha pequena viagem e pressuposto de saída, ou por eu imaginar seus problemas, eu sorrio, eu me divirto de perceber pensamentos que obstruem o meu caminho e eu fico a retirar suas pedrinhas de meu meio, como a me distrair de andar a ir logo até lá. tremo de frio, o ar agora passa de rasante ao meu lado, como que para lembrar-nos da paisagem, meu corpo quer abrigo enquanto eu prometi aventuras.

a temperatura do ar fere a minha garganta, que está seca e fria. suo de nervoso, eu corri para esquentar o meu corpo por não perceber que eu já estava fora e que aqui nevava, de onde veio tanta neve? as árvores verdes se transformaram em galhos secos pelo outono, o vento substitui o barulho da viva cantoria dos sapos e grilos e parece que a lua é que está faiscando, sua luz treme e parece um sol enevoado por nuvens. As nuvens brilham ao seu redor, e chamam as cores do verde, do violeta, do azul, e como se fossem listras de um cordão seguiam juntas, até se misturarem e perderem-se no ar, por um momento, critico a minha visão, que faz sentido isto, que é isto comparado ao que se escrevia antes, eu não faço a menor ideia, eu pareço responder para mim mesmo enquanto acaricio a casca da árvore, e me percebo cercado pela neve, é como se, como a própria neve, a escrita acontecesse sobre um plano de três realidades, um, o ar, que é onde estou, que é meu lar, meu corpo. um segundo, que é dentro deste lugar que Destino e os outros vivem, que é a água, e este terceiro, que foi um lugar ao qual eu me transporto da mesma maneira que me transporto do primeiro para o segundo, de neve, então, faz sentido que falei três cores, pois são aquelas três cores os elementos, e bom, perdoem-me a metalinguagem, mas estou voltando à prática e preciso de vossa paciência, como um carro velho a perceber os motores e o combustível bastar-lhe e o motor voltar a funcionar, pois bem, comparo-me a um carro, por cruzes, bom, chega destas pedras que estou pondo no meu caminho porque se não não voltamos àonde queríamos ir, e jogo a pedra de eu carro para o mais longe possível, ( ela um dia acertou um pássaro inocente )

pois, lembrei-me, lembrei-me. isto condensa as polaridades e a cegueira da cena do filme, isto condensa o nevoeiro que faz desolar a casa, isso me parece que é o fio de fibra da madeira que vai até os substratos de suas raízes, e parece-me, que me interessa as raízes dessas, como se fossem partes mais antigas, mas isto eu já não sei, é apenas intuição, pois vamos, as raízes são finas para uma árvore de duzentos anos, talvez por isso não se mature, diferente de tantos os tempos, os seus capilares são como cabelos de pessoas de tão sedosos, eu poderia penteá-los, como se sustenta essa árvore, é uma história sobre cabelos, 

e sabendo disso, que é uma história sobre cabelos, polaridades, deserção e frio, é que começaremos

[2/2, que virou 2/3] - o bispo tomba a torre

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

mais uma vez, de volta

mortal, tu falou de nós aos outros. Vinha uma voz sucinta e certeira do fundo da casa. Meu reflexo seria de admitir e querer me redimir, como quem faz um sacrilégio e quer ser bem recebido, contudo, estou sóbrio o suficiente para saber que isto não vale de nada, que na verdade, é pela constância de meus atos que eu estava sendo medido, se é que houvesse uma escala, e nesta escala, eu julgava-me embaixo, por isso eu segurava o lado direito do rosto, enquanto a vela acendida fazia a minha sombra bruxulear contra a parede e eu via os chifres de Mistério por detrás do balcão de madeira, ele tocava o peito, e os seus pêlos brancos caíam em meu chão um pouco sujo, empoeirado. Ele fincava seus olhos amarelos dentro dos meus, e com isso conseguiria me hipnotizar se neste momento eu não estivesse fazendo este relatório a vocês, distraído, mas olho em seus olhos, e vejo que pela frente de sua irís há uma espiral branca, enevoada através da pouca fumaça cinza da vela, eu digo, Mistério, há muito que eu falo de vocês aos outros, eu estou sendo repreendido agora? sabes que é uma coisa de meu tempo, que hoje é mais simples de transformar a intimidade em outras coisas, contudo, existe em meu tempo uma coisa chamada mercadoria e não pretendo transformar o discurso que há vocês nisso, se é isto que você está me pedindo, eu disse como querendo me redimir pelas coisas que eu já havia dito, e ele, com um Paletó preto, de quem volta por um casamento e com uma bengala que tinha cravado de punho próprio um bode na ponta, disse para mim sentado na cozinha, sim, eu já sabia, e por isso é que ansiamos outras coisas, meu irmão te deu esta casa, não foi? Destino... eu penso, eu sinto que as minhas memórias estão embriagadas, no sentido de que fogem de mim ou de que eu as esqueci, e esquecê-las para mim é como esquecer como mover um braço, simples de lembrar, contudo se não o fizer em uma hora crucial pode-me custar a vida, como em uma conversa com Infinito, ou na luta diária com a minha fera, eu respondo, eu não lembro, Mistério, eu estou pensando que você é ele, não sei mais quem é quem, talvez eu tenha de ir nos meus livros, e aponto com os olhos para a estante de madeira que possui alguns papéis juntos, para ver o que eu escrevi, Mistério me diz que eu estou dormindo, que aqui não há papéis que não as plantas e outras coisas, e que isto é devaneio, e então eu sei que ele tem razão, e eu acordo em minha cama feita de ninho de palha,

Mistério continua sentado em minha casa cor de mogno iluminada pela vela fraca, ele, de pernas cruzadas. Se vocês já experienciaram uma entidade acordar olhando para vocês com tal ar de insatisfação, talvez tenham experimentado o que eu experimento agora, um comichão nas costas, na parte esquerda dos ombros, que me faz querer desentortar uma árvore inteira que cresce de minha má vontade e preguiça, e suas raízes estão nos meus pés e os galhos são os meus ombros, imagine que a vontade é de pegar uma serra elétrica e partir isto tudo com tamanha violência, mas, para a minha sorte, não há serra elétrica ou resquícios de eletricidade que não seja a que desça do céu ou que existe dentro dos animais, Mistério assobia, e chega a fera, amarela entre laranja e cor de sol na relva, ela selvagem entra e arranha o assoalho, olhando para mim, ele é capaz de domar a fera, e disso eu não sei, e senti saudades dela, há tanto tempo que só falo dela e não a vejo, contudo, ela mostra seus dentes e rosna para mim de revolta por eu a ter negligenciado tanto tempo, antes mesmo de termos começado a nos apaziguar eu fugi, enquanto limpava as plantas ao lado de fora de minha casa, e então, eu acordo mais uma vez

Eu estava entre as nuvens e Infinito continuava o jogo de xadrez com Desconhecido, e nas autoridades eles falavam, é tempo e ele não está preparado, e Desconhecido riu, e disse, nós nunca estamos antes de precisar estar. Deixe-o ir, e assim, com um bispo ele tombou uma torre, e isso foi o prenúncio de saber que eu me encontraria com outros homínideos como eu, que não fossem antropomorfos reunidos de maná, fontes e reconhecimento das emoções dos outros, e penso, talvez eu só vá ver as torres, as construções de pensamentos que existem em mim, e seja isso, e lá existem armadilhas das mais belas as quais eu posso me aproximar, como verdades absolutas as quais são tantalizantes de acreditar, mas que me desaproximam de qualquer contato com o mundo sensível que me circunda, se eu pudesse chamar da Verdade, mas não é, porque Verdade não sei nem por onde anda, e que idade tem hoje, mas sei, que entrarei por dentro dessas torres que são os construtos, que acabaram por ser derrubadas por Desconhecido, com um bispo.

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o bispo tomba a torre.

esta memória é uma árvore jovem, situada aqui no campo há apenas duzentos e poucos anos, mas parece já decrépita, sendo pouco generoso e grosso, mas veja, ela já foi comida por gafanhotos através dos buracos amarelados de suas folhas e suas folhas estão maiores e disformes, como que se estivesse recebendo luz demais do sol, e sem brincadeira, o tronco não sei se está empoeirado ou se isto é cupim, sua madeira está da cor pálida de quem não possui seiva em seus vasos que transportam vida, não sei porque a descrevo, mas é esta árvore a árvore que sustentou um império uma vez, esta árvore nasceu com a ideia de um pensamento que norteou um País e agora ela se decaía¹, e cabia a estes homens recuperarem esta árvore, mas aonde eles estão? não há ferramentas aqui perto, se não uma breve clareira, um espaço verde raso de capim aonde alguns animais se deitam e dá pra ver que se amassa o chão, amarelo, e alguns fizeram as tocas embaixo de seu galho, parece, pelo passar do caminho, que há uma estrada para daqui a diante, e por ter uma estrada e eu por ter onde seguir, eu vou como se planasse no vento...

aonde estão?

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