terça-feira, 15 de agosto de 2017

tocando na árvore,

tocar nesta árvore é uma ponte que me levará para a época em que ela foi plantada, é assim que imagino antes de tocá-la, e eu a toco. Nada acontece, há ao meu redor a fanfarra dos grilos e um leve coaxar dos sapos. Consigo ver muriçocas no ar de tanto que a lua brilha no descampado da clareira, similar a um farol dos Deuses sobre mim, me pergunto se estou sendo investigado, e tento olhar para as nuvens, mas não há nenhuma ou constelações que brilhem a zelar por mim, estou só. O ar frio, lento, me reconforta e eu sento ao pé da árvore. Com a unha tento caminhar entre as suas cascas. Exalam um cheiro de aquecimento, e me trás a tona a memória da iluminação amarela dos filmes em que as pessoas se aconchegam ao redor da clareira caseira enquanto está o maior inverno lá fora, a mãe faz biscoitos aos pequenos com chocolate, e parece idílico, lembro que nesta memória ela havia perdido uma criança ao lado de fora da neve, e embora estivesse ansiosa, dedicava amor para fazer a comida, que como pelo cheiro, traria a criança desertora de volta para casa, mas não era assim, seu irmão deitava-se no sofá com ares de quem está sozinho, sentindo falta de quem lhe acompanhe em suas aventuras com os lençóis da colcha e do freáticos da terra que vão desaguar no mar da canoa de colchão, a pequena, sente raiva, dizia que ele havia fugido por conta dela, que ela havia magoado ao roubar-lhe o lugar perto da clareira na noite passada e por isso havia fugido, se culpava, não sei se é meu olhar que turva a realidade desta memória que é imagem, mas as coisas pareciam mais espinhosas do que pareciam ser, e ainda assim, mesmo que isto fosse verdade, escolhi ignorar coisas algumas e ainda outras, eu nem saberia como as citar pois eu mesmo sou cego, e só posso ver com as mãos, afinal, como eu posso sentir com as mãos uma memória? eu me pergunto de meus métodos enquanto caminho no tempo de minhas lembranças televisivas, afim de reconhecer que aqui, há um fio de fibra, um pedaço de madeira ao qual vem da raiz, que algo nesta imagem remete àquilo ao qual eu procuro, e entre as cascas das árvores que descasco, e exalam aroma de limão, que me faz fechar os olhos e as narinas, como se fosse um espeto ao qual a árvore empunhava como uma espada, não faça isso comigo, e eu vejo os meus erros e me desculpo, e digo que deixarei àquele que as guarda o punhado de seus cascos e sairei para buscar algo que lhe servisse de armadura para o tempo naquela parte maculada por mim. olho ao céu e uma só estrela brilha para mim e some, e uma outra memória me vêm, desta, de minha família que lá está, e cuida de mim como quem cuida desta árvore, parece que vou meter-me em problemas, pelos cuidadores já se anunciarem como a estrela guia de minha pequena viagem e pressuposto de saída, ou por eu imaginar seus problemas, eu sorrio, eu me divirto de perceber pensamentos que obstruem o meu caminho e eu fico a retirar suas pedrinhas de meu meio, como a me distrair de andar a ir logo até lá. tremo de frio, o ar agora passa de rasante ao meu lado, como que para lembrar-nos da paisagem, meu corpo quer abrigo enquanto eu prometi aventuras.

a temperatura do ar fere a minha garganta, que está seca e fria. suo de nervoso, eu corri para esquentar o meu corpo por não perceber que eu já estava fora e que aqui nevava, de onde veio tanta neve? as árvores verdes se transformaram em galhos secos pelo outono, o vento substitui o barulho da viva cantoria dos sapos e grilos e parece que a lua é que está faiscando, sua luz treme e parece um sol enevoado por nuvens. As nuvens brilham ao seu redor, e chamam as cores do verde, do violeta, do azul, e como se fossem listras de um cordão seguiam juntas, até se misturarem e perderem-se no ar, por um momento, critico a minha visão, que faz sentido isto, que é isto comparado ao que se escrevia antes, eu não faço a menor ideia, eu pareço responder para mim mesmo enquanto acaricio a casca da árvore, e me percebo cercado pela neve, é como se, como a própria neve, a escrita acontecesse sobre um plano de três realidades, um, o ar, que é onde estou, que é meu lar, meu corpo. um segundo, que é dentro deste lugar que Destino e os outros vivem, que é a água, e este terceiro, que foi um lugar ao qual eu me transporto da mesma maneira que me transporto do primeiro para o segundo, de neve, então, faz sentido que falei três cores, pois são aquelas três cores os elementos, e bom, perdoem-me a metalinguagem, mas estou voltando à prática e preciso de vossa paciência, como um carro velho a perceber os motores e o combustível bastar-lhe e o motor voltar a funcionar, pois bem, comparo-me a um carro, por cruzes, bom, chega destas pedras que estou pondo no meu caminho porque se não não voltamos àonde queríamos ir, e jogo a pedra de eu carro para o mais longe possível, ( ela um dia acertou um pássaro inocente )

pois, lembrei-me, lembrei-me. isto condensa as polaridades e a cegueira da cena do filme, isto condensa o nevoeiro que faz desolar a casa, isso me parece que é o fio de fibra da madeira que vai até os substratos de suas raízes, e parece-me, que me interessa as raízes dessas, como se fossem partes mais antigas, mas isto eu já não sei, é apenas intuição, pois vamos, as raízes são finas para uma árvore de duzentos anos, talvez por isso não se mature, diferente de tantos os tempos, os seus capilares são como cabelos de pessoas de tão sedosos, eu poderia penteá-los, como se sustenta essa árvore, é uma história sobre cabelos, 

e sabendo disso, que é uma história sobre cabelos, polaridades, deserção e frio, é que começaremos

[2/2, que virou 2/3] - o bispo tomba a torre

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

mais uma vez, de volta

mortal, tu falou de nós aos outros. Vinha uma voz sucinta e certeira do fundo da casa. Meu reflexo seria de admitir e querer me redimir, como quem faz um sacrilégio e quer ser bem recebido, contudo, estou sóbrio o suficiente para saber que isto não vale de nada, que na verdade, é pela constância de meus atos que eu estava sendo medido, se é que houvesse uma escala, e nesta escala, eu julgava-me embaixo, por isso eu segurava o lado direito do rosto, enquanto a vela acendida fazia a minha sombra bruxulear contra a parede e eu via os chifres de Mistério por detrás do balcão de madeira, ele tocava o peito, e os seus pêlos brancos caíam em meu chão um pouco sujo, empoeirado. Ele fincava seus olhos amarelos dentro dos meus, e com isso conseguiria me hipnotizar se neste momento eu não estivesse fazendo este relatório a vocês, distraído, mas olho em seus olhos, e vejo que pela frente de sua irís há uma espiral branca, enevoada através da pouca fumaça cinza da vela, eu digo, Mistério, há muito que eu falo de vocês aos outros, eu estou sendo repreendido agora? sabes que é uma coisa de meu tempo, que hoje é mais simples de transformar a intimidade em outras coisas, contudo, existe em meu tempo uma coisa chamada mercadoria e não pretendo transformar o discurso que há vocês nisso, se é isto que você está me pedindo, eu disse como querendo me redimir pelas coisas que eu já havia dito, e ele, com um Paletó preto, de quem volta por um casamento e com uma bengala que tinha cravado de punho próprio um bode na ponta, disse para mim sentado na cozinha, sim, eu já sabia, e por isso é que ansiamos outras coisas, meu irmão te deu esta casa, não foi? Destino... eu penso, eu sinto que as minhas memórias estão embriagadas, no sentido de que fogem de mim ou de que eu as esqueci, e esquecê-las para mim é como esquecer como mover um braço, simples de lembrar, contudo se não o fizer em uma hora crucial pode-me custar a vida, como em uma conversa com Infinito, ou na luta diária com a minha fera, eu respondo, eu não lembro, Mistério, eu estou pensando que você é ele, não sei mais quem é quem, talvez eu tenha de ir nos meus livros, e aponto com os olhos para a estante de madeira que possui alguns papéis juntos, para ver o que eu escrevi, Mistério me diz que eu estou dormindo, que aqui não há papéis que não as plantas e outras coisas, e que isto é devaneio, e então eu sei que ele tem razão, e eu acordo em minha cama feita de ninho de palha,

Mistério continua sentado em minha casa cor de mogno iluminada pela vela fraca, ele, de pernas cruzadas. Se vocês já experienciaram uma entidade acordar olhando para vocês com tal ar de insatisfação, talvez tenham experimentado o que eu experimento agora, um comichão nas costas, na parte esquerda dos ombros, que me faz querer desentortar uma árvore inteira que cresce de minha má vontade e preguiça, e suas raízes estão nos meus pés e os galhos são os meus ombros, imagine que a vontade é de pegar uma serra elétrica e partir isto tudo com tamanha violência, mas, para a minha sorte, não há serra elétrica ou resquícios de eletricidade que não seja a que desça do céu ou que existe dentro dos animais, Mistério assobia, e chega a fera, amarela entre laranja e cor de sol na relva, ela selvagem entra e arranha o assoalho, olhando para mim, ele é capaz de domar a fera, e disso eu não sei, e senti saudades dela, há tanto tempo que só falo dela e não a vejo, contudo, ela mostra seus dentes e rosna para mim de revolta por eu a ter negligenciado tanto tempo, antes mesmo de termos começado a nos apaziguar eu fugi, enquanto limpava as plantas ao lado de fora de minha casa, e então, eu acordo mais uma vez

Eu estava entre as nuvens e Infinito continuava o jogo de xadrez com Desconhecido, e nas autoridades eles falavam, é tempo e ele não está preparado, e Desconhecido riu, e disse, nós nunca estamos antes de precisar estar. Deixe-o ir, e assim, com um bispo ele tombou uma torre, e isso foi o prenúncio de saber que eu me encontraria com outros homínideos como eu, que não fossem antropomorfos reunidos de maná, fontes e reconhecimento das emoções dos outros, e penso, talvez eu só vá ver as torres, as construções de pensamentos que existem em mim, e seja isso, e lá existem armadilhas das mais belas as quais eu posso me aproximar, como verdades absolutas as quais são tantalizantes de acreditar, mas que me desaproximam de qualquer contato com o mundo sensível que me circunda, se eu pudesse chamar da Verdade, mas não é, porque Verdade não sei nem por onde anda, e que idade tem hoje, mas sei, que entrarei por dentro dessas torres que são os construtos, que acabaram por ser derrubadas por Desconhecido, com um bispo.

***

o bispo tomba a torre.

esta memória é uma árvore jovem, situada aqui no campo há apenas duzentos e poucos anos, mas parece já decrépita, sendo pouco generoso e grosso, mas veja, ela já foi comida por gafanhotos através dos buracos amarelados de suas folhas e suas folhas estão maiores e disformes, como que se estivesse recebendo luz demais do sol, e sem brincadeira, o tronco não sei se está empoeirado ou se isto é cupim, sua madeira está da cor pálida de quem não possui seiva em seus vasos que transportam vida, não sei porque a descrevo, mas é esta árvore a árvore que sustentou um império uma vez, esta árvore nasceu com a ideia de um pensamento que norteou um País e agora ela se decaía¹, e cabia a estes homens recuperarem esta árvore, mas aonde eles estão? não há ferramentas aqui perto, se não uma breve clareira, um espaço verde raso de capim aonde alguns animais se deitam e dá pra ver que se amassa o chão, amarelo, e alguns fizeram as tocas embaixo de seu galho, parece, pelo passar do caminho, que há uma estrada para daqui a diante, e por ter uma estrada e eu por ter onde seguir, eu vou como se planasse no vento...

aonde estão?

[1/2]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

eu fugi. [3]

já era a parte do domínio da lua no céu¹, e para debaixo do brilho fosco e branco que ela tingia o capim selvagem de minha altura - eu via apenas púrpura. olhava ao céu, e em minha vista estava o buraco negro de quem olha demais para o sol e com ele a retina fica cansada e ficamos a ver negativo e escuro nas coisas, como se faltasse-me um buraco na paisagem na esquina entre duas estrelas no céu e uma árvore.
não vou ser prolixo, estou acovardado e acocorado por detrás de uma árvore e ofego, há razões pelas quais eu fugi, senti que eu temia forças do encontro e quando vi eu já debandara e atravessara o rio a nado e a lã que me veste ainda pinga. está de noite, não tenho abrigo e perdi aquele que caçava de vista e logo penso na fera e no que acontecerá quando ele se encontrar com ela, por cruzes, era melhor eu ter ficado perto daquele homem, eu não faço ideia de como achar esta fera e eu preciso salvá-la, coragem, meu coração, tu precisa - eu digo a mim mesmo - agora usa de tua inteligência para poupar-nos e achar uma solução diferente da que estamos a fazer de pelo mesmo caminho voltar
nós vamos de novo ao encontro, não debanda
e olhe ali a frente, há gente que mora em comunidade, e estão a queimar e fumaça sobe no céu, cinza como se fosse nuvem e pudesse chover, e tusso, a fogueira ilumina de amarelo vermelho o semblante das pessoas que a rodeiam e elas parecem celebrar alguém que há muito já foi e era querido, alguns choravam, e eu a me esgueirar como pantera amedrontada e alerta de interferir na festa das pessoas
volto mata à dentro, não como há dias, furtarei comida?

mas o que...