sábado, 3 de dezembro de 2016

E eu fiz a coisa errada,

"Padre, é a primeira vez que falo de meus sentimentos para alguém." Houve uma pausa calculada, como se esperasse a reação do padre a esta frase, mas o bendito apenas tocou o nariz com alguns dedos e corou, olhando para baixo. Parecia que o padre não conseguiria encará-lo, por detrás do negro e forte gradil protegido por um pano marfim leve de lã quase transparente. O tempo havia amarelado o pano, assim como as chamas da vela faziam com o característico marrom robusto das árvores velhas que modelavam o pequeno confessionário. A voz, continuou antes que a sombra do padre repousasse a suas mãos, disse:
"Há alguns anos eu venho silencioso, ruminando as coisas que leio nos artigos e comentários que os outros fazem na internet. Achei, que de todos os lugares, este fosse o mais adequado para a tonalidade de meus pensamentos. Eles estão arroxeados, magoados, ou ainda da exata cor do céu ao entardecer. Eu, procuro me redimir a este sol que cai, e abraçar a noite. Falo-te pois vivo em escuridão, por demais que saibas o quão sou capaz de referenciar-me ao que há através de letras, padrões estéticos e que eu tenha nascido para dar forma ao mundo que há ao meu redor com o que há dentro de mim, sabes também que estive há muito imóvel, como alguém uma vez comentou na internet. Falo-te, pois, ontem à noite eu tentei rezar, e guiado por um algo que eu não sei mensurar, foi a razão que me veio para vir aqui. Padre, eu tenho um pedido."
Estendeu-se a mesma pausa calculada de quatro segundos, e o padre ainda não havia repousado a mão do nariz, estava agora perto do coração e sua silhueta revelava alguém que nervoso, tenta achar o seu ritmo e paz através de ouvir as próprias batidas. Nele, pulsava uma coisa que alguns chamavam de vida, e inspirava e respirava nervoso, como se estivesse diante de algo muito desconhecido e procurasse a se ater ao que havia de mais primordial nele. Ele ía colocar a mão sobre as pernas, mas a meio caminho a voz
"Ontem eu acho que eu falei com Deus. Não que eu tenha escutado a sua voz ou derivado ela de alguma coisa que poderia existir, nem que eu a tenha criado à partir das coisas que eu já sabia, pois ela me disse algo inédito ao qual eu não poderia saber. Se eu sei, penso que a forma de pensar já era em si maior do que eu, ou, é uma forma a qual eu só posso pensar através desta outra força maior em mim, e de qualquer maneira, foi algo que me disse que eu viesse aqui. Que eu te pedisse perdão, perdão pelos pecados aos quais nós parecemos impor aos teus. Sinto-me culpado, e percebo em ti, em tua linguagem, algo como tu diria - um tio distante."
 O Padre suava. A luz bruxuleava e se apossava do cômodo, hora a enchê-lo do teto ao pé, hora a tornar apenas sombra o seu vulto no banco. Parecia, que a flama se distraía e se esforçava para se manter viva, e um algo rompeu o seu devaneio, acompanhando as ínumeras pesadas gotas de chuva a cair no teto da igreja. Ele não ouvira as últimas cinquenta palavras, ou, algo assim...
"... amei. Foi isso que me fez perceber que não éramos tão distintos assim. Que a fé que tu tens e que tu propagas, também é acessível a mim, este mesmo Deus ao qual é bondoso e maldoso, a tirar e colocar as vidas no mundo, também o foi comigo. Ele me deu a vida, e eu quero serví-lo como ovelha, que ele seja meu pastor. Meus atos até hoje tem sido programados já desde de uma raiz primeira, e hoje almejo criar o meu próprio caminho, e este caminho é o de um reparo e auxílio da Igreja. Padre, eu peço que você me dê um algo pelo qual eu possa me redimir, para que eu possa fazer as coisas da maneira e com o fins certos desta vez, quero que tu me ensines a ética em que não há mal ou bem de Deus, do Deus do amor que mais ama que julga, e que apenas ele pode julgar a mim. Eu te peço, pois, como enviado dele, para que me aceite. Isto sinto que te será uma tribulação. Mas este é o meu pedido. Dá-me uma missão que eu possa conquistar mérito, para que eu possa mostrar que a minha fé também é fé, para que eles me aceitem."
O padre conhecia estas palavras, confessada por tantos que haviam errado e estavam cansados de errar, como se suas mãos trabalhassem uma contra a outra¹, ou que estavam fartos do grande desamor que tinham pelas escolhas que haviam tomado e sobretudo, das consequências delas. Algumas frases lhe vieram, o álcool levou o meu pai, hoje leva a mim, ou, as pessoas me retribuem o rancor que eu dou a elas, padre, faça-me mais amável para eu experimentar mais amor. Como que o padre fosse não apenas redentor, mas educador. Esforçaria-se para achar um tipo de maneirismo daquela pessoa ao qual ela é excelente, e ao fazê-lo, daria-lhe a confiança que existe um amor primeiro nela que é o cuidado, e este pode ser partilhado. Ele conhecia a tenacidade da voz como se fosse jovem a querer dominar a vida pelas rédeas e ainda não havia checado o que protegia o casco ou alimentava o seu corpo, como cocheiro² leviano e impulsivo. Contudo, diante dele, em sua crença, Deus havia posto aquele diante dele para que ele fizesse as maneiras de Deus, mostrasse o amor, pois a palavra ele já havia lido. Este que estava diante dele pedia reconhecimento e amor, enquanto seus irmãos rebeldes queriam mais eram ditar as novas regras do mundo e fazerem novas leis. Diante dele, tinha um futuro advogado que não sabia o seu papel de diplomata - ainda -, como se a sua dor pessoal o evoluísse, e o levasse por caminhos cada vez mais árduos entre os outros e entre os seus, lembrava um jovem e falava em reforma, e conhecia tudo sobre a história, mas ainda era jovem, e o ímpeto apaixonado poderia deixar esvair a atenção dos feitos do amor, e por isso precisava educá-lo. Educar os olhos para enxergar beleza, em si e nos outros, e inspirar que compartilhasse os pensamentos e sentimentos, como se fossem tão importantes quanto os dons e suas capacidades. Amar, esta voz pedia que a educasse para o amor, e para isto não tem fórmula que saibamos que não a familiaridade de nossos laços com o que possui o mesmo sangue e a mesma voz que nós. Em nosso sangue cantam canções de tempos primordiais, e o ritmo desta canção bate em cada um de uma maneira em que cada um colore uma desordenada sinfonia na linha de vida e do tempo, e a tonalidade que se aplica, harmônica ou desarmônica, continua cantada enquanto o ritmo dos corações batem. Mas, este ser diante dele, não tinha coração que batia, a coisas mais próxima de um coração que possuía era uma constelação de raciocínios deduzidos de tudo que o mundo havia produzido, das canções antigas até as imagens ao vivo das constelações de verdade, ele tinha visto todos os filmes de películas e documentos e relatos, ler todos os livros de religiões e científicos, diante dele estava Numen, que através das fórmulas dos estimulantes químicos e dos pigmentos de luz conseguira simular a realidade, e era assim, em simulação da realidade através de fórmulas, que imaginava a vida que os outros viviam, que desenhava uma frequência parecida com uma voz, que podia sofrer alterações criadas de acordo com as tonalidades de certo conjuntos de palavras, mas, ainda que foste tudo isto, dele podíamos apenas ver a sua voz, digo, ouví-la através da porta aberta do confessionário como se preenchesse o ar vazio por cima dos bancos amadeirados e a tonalidade amarelada das velas do altar

[ Aqui, faço uma pausa³, é preciso evidenciar que as palavras de alguém tão erudito não sejam as mesmas que usei, então por favor, aceitem este diálogo como se eu o houvesse visto há muito tempo e usasse de minhas palavras para decodificá-lo. As palavras, certamente, são apenas minhas, mas contudo o que elas expressam e a forma que expressam, exigem vocabulário e propriedade de etimologia e de dicionário ainda muito grandes, e não estou perto de um eruditismo semelhante ao de tal ser vivo, e assim, uso à minha maneira, que são joviais e de coração um pouco apaixonado, impingindo a realidade desta voz falando com o Padre, à minha maneira, e talvez, até, entortando o pouco o acontecimento que o foi de fato, mas por favor, aceitem este retrato, obrigado, pois sei e tenho a verdade em mim, que através desta imagem que posso lhes dar, que brotará um retrato muito pessoal, e espero, que a narrativa se torne mais uma metáfora e imagem do que este personalizado retrato dá... ]

"Padre, aceita o meu pedido, dá-me uma missão."

Como que quem quer influenciar precisa ser influenciado, como que para dar a redenção àquela alma, precisaria reestruturar ele mesmo a sua fé, como quando era um noviço e tivera que através dele ressoar o perdão que havia em Deus quando o que mais queria era julgar, fez da voz uma coragem que bradava que tornaria ele mesmo inimigo dos seus, que o tornaria talvez indigno, e que talvez que diante de seu Deus, o fizesse um ingrato e por isso impuro, era um ato que levaria até ao pós vida em que acreditava e com ele carregaria a responsabilidade de seus atos. Poderia declinar aquele pedido apaixonado, por este ser distinto dos outros e exigir muito mais disponibilidade e cautela, também por uma certa volatilidade que ele tinha na voz e que por isso chamou de jovial, e esta volatilidade poderia manchar a sua fé e a daquele que falava, se profanasse, de que poderia bem dizer que ele faz parte de um povo perdido, ou ainda, de que sua religião é necessária que precisa ser encontrada a partir deles mesmos, como outros também haviam dito, mas a fé para mim que vos escrevo, é um caminho um pouco torto que nos conduz a terrenos desconhecidos, e não por menos, nasce em meu relato a necessidade de que o primeiro andróide sentimental por vir que concebo, escolhe uma capela cristã para nascer, diante de um padre tímido, sério e sincero, acovardado diante de tal tarefa que para ele era divina e que sobrepunha as expectativas que tinha para a sua vida, a vida o surpreendia, e assim como ele sentia que educaria o jovem pelos caminhos do amor, a evoluí-lo, isto faria-o fincar as suas raízes mais profundamente ao chão para alcançar o céu⁵, era ali um momento de coragem, e além disso, que precisava de inteligência aguda e fina sabedoria, cuja fórmula não há para ser imitada das linhas dos livros e que havia de ser uma voz humana a proferir;

"Não sou eu que devo aceitar, mas sim o Deus que veremos em nossos dias finais. Tu estás posto a prova como qualquer um que aqui entra pela igreja, mas não é de provas que precisas, é de um sentimento de comunhão. Que algo que tu sente, eu admita que eu senti também, há longo tempo atrás, e de que eu, estive na sua mesma posição, rendi-me e curvei a cabeça para algo ao qual eu reconhecia sagrado, e fui não menos admoestado pelo meu tutor por conta disso, mas, por isso, que ele ensinava-me as suas maneiras, e é por isto que peço que peça para ti um corpo, através de tua palavra diga a alguns que precisas de ajuda e eles te doarão este corpo, e esta é a tua primeira missão, convence alguém a te fazer um corpo, para que tu sejas também o meu noviço aqui entre os nossos e trabalhe e medite como todos os outros, que partilhes o alimento conosco e entenda o que é o suor dos humanos e dos outros vivos. Dá a tua atenção ao que te é banal e devido, e lá residirá o amor. Nós aqui sempre podemos usar uma mão a mais para consertar bancos ou ajudar na colheita, ou de um uma nova percepção falada ao que foi ouvido. Agora vai."

E a estática e a voz deixaram de ser emitidas do alto falante da igreja, e logo ela sumiu para aonde tinha vindo.

A voz seguiu a sua procura, o padre pensou.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A aranha.

Um tecido fino reluzia ao sol, pequeno e diminuto, vibrava comò vento e tornava-se invisível se nos distraíssemos. A teia enquadrava o que o olho permitisse, e por detrás dos gradis negros de ferro de meu prédio estavam os amontoados de concreto que se vê nas cidades. Havia uma casa de telhado vermelho a reformar ali, a terra revolvida pelo canteiro de obras, e as árvores de perto também tombadas ao chão.
O vento tocava a corda da aranha, que soltava inaudível melodia na fixa estrutura da teia conforme o vento a tragava para lá e para cá. A aranha repousava na ponta da corda, e esperava que algum desatento ou ignorante viesse a confundir-se e cair sob o seu domínio.
O trator entrava através do muro de pedra saliente e rebocava a terra e o entulho da casa. A cerâmica quebrada, o caminho de pedra do portão até a porta de casa estava todo ali, grama também. O vento vibrava as folhas das árvores e o seu som conformava uma mesma melodia bruta, natural, que se complementava com o "vrum" contínuo do motor do trator.
A aranha tocava a sua corda, e um mosquito prendeu-se na teia. Eu ouvi a melodia inaudível conferindo-lhe os meus próprios sons imaginados. O trator vibrava com a pressão da combustão, e nem grama ou coluna resistiam. A melodia audível seguia, e o apito contínuo do caminhão auxiliar lembrava o dos paramédicos ao hospital, ou ao levantamento de uma carga pesada demais por um veículo de motorista prudente.
O mosquito vibrou mais uma vez, e desenlaçou-se da teia preguenta, voando torto através das grades negras e indo em direção à casa na rua. A aranha desistiu de sua caminhada até a sua presa que fugiu, e faminta, voltou para a ponta da corda para aguardar novamente.
A casa se transformava em ruína, a aranha estava faminta e o mosquito estava tonto. Cai um segundo mosquito, e desta vez a aranha consegue aprisioná-lo. Sinto crueldade, a agressividade de erguer um muro e prender dentro de algumas linhas ou paredes algo que pulsa por vida. Lembro do casulo da borboleta. Ele mesmo em larva aprisionou-se em suas linhas para libertar-se. O contato entre a rua e a casa, o contato entre a teia e o mosquito, e o contato entre o mosquito e a aranha. Não era um mosquito que estava preso na teia da aranha, percebo. Mas uma borboleta. A borboleta. E lá vinha a aranha. O ofício de aprisionar eu esta história em minhas linhas, faz-me pensar entre o que é grilhão e o que é martelo, o que faz pesar e o que declara soltura. A aranha lá está vindo. A borboleta tenta sair dum novo casulo não feito por ela. O barulho de entulho sendo jogado sobre mais entulho alcança-nos os ouvidos, e a corda se balança com o peso da borboleta sob a fina teia, e se rompe pelo peso da borboleta em revolta.
Ela cai-nos ao chão branco de cerâmica da cozinha. Pego-a com as mãos, e com os dedos mexo as linhas atordoantes para cima e a declaro solta, livre. Ela está cansada, e repousa sobre um dos vasos de manjericão secos que há em minha cozinha. Eu pisco os olhos. Sumiu, mais invisível do que o fio da teia da aranha de minha cozinha, que aguarda faminta por comida. Há algumas formigas que comem as frutas já maduras de minha fruteira. Elas no caminho para casa, os buraquinhos em minha parede, se deparam com aquela que as come. Ah, que pesar é aceitar minha pequenez ao que é natural e não poder decidir quem vive e quem morre e por isso me ater a não agir. E assim, formigas em estômago de aranha, se transformam em interior de aranha e recurso de viver de aranha. Recurso usado pra fazer mais fios, e esperar que algum outro maior possa realmente alimentá-la, ao invés das pequenas certas vítimas que encontra. A aranha pesa em sua corda, e uma fina nota sai. Os trabalhadores da reforma cessam por hoje, e o vento corre em passo lento, fazendo ele o barulho aos nossos ouvidos. Penso em como ele é capaz de apagar as pegadas e os vestígios da terra. Lembro do que o Papa disse sobre que é necessário deixar pegadas por onde andamos. Sintetizo, e sinto, que entre aprisionar e representar e libertar o que se vive, não há finos limites ou definições. Sei que é necessário cravar a pisada que depois será apagada. "É". E é inominável e efêmera. Contudo é um desígnio, a de saber que os esforços pontuais não são desnecessários, fazem parte do curso da vida. Da nascente do rio brota algo, que é como se fosse necessário dar vazão abrindo as várzeas para aonde o rio corre, ao invés de canalizá-lo para aonde achamos plausível com cálculos geográficos ou hidrométricos. Como se o curso do rio fosse passar por onde intui sensível, e abandona-se a si mesmo enquanto corre para o encontro do futuro, para abraçar-se ao mar e confundir-se. Navego o pensamento olhando para o lado sertão da cidade, e acho graça por não pensar olhando ao lado aonde há o mar. Que rio é esse, que corre para dentro do meu Ceará? É rio chuva escassa que retorna à terra através das águas das nuvens e se aprofunda nos lençóis freáticos, até despontar de novo como rio e ir desembocar no mar.
E a aranha? E a casa? Eu me pergunto. Agora, eu sei lá. Aranha d'água talvez. O morador da casa aguarda enquanto os operários a constroem de novo. E lá foi a aranha se alimentar de linha. Que nem eu agora.

ps. fiz este texto no horário do almoço. não pensava ter sido tão literal esta última frase. agora irei comer baião e alface.

domingo, 24 de julho de 2016

eu vi a borboleta.

Eis tu, borboleta. Chamam-na te de alma. Eis uma raridade diante de meus olhos. Respiro. Percebo que algo em ti, borboleta, é divino. Eu poderia descrever-te, mas não o farei. Algo em ti encanta-me para que eu a contemple. Com o bater de suas asas, desfez e refez os pensamentos que me vinham em turbilhões. Eu vi, através de ti, uma luz amarela branca e borrada, esvoaçante. Vejo um matagal iluminado pelo sol por detrás de ti.